sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Piano Blues

Já ouço o som das teclas de piano
Silenciadas por seus híbridos sussurros
Que aos pés dos meus aquecidos ouvidos
Me contas teus desejos mais impuros

Muitos deles dos quais já conheço
Alguns, em mente, já até realizei
Mas não trocaria seu toque real
Por histórias que eu mesmo inventei

Me ensine a dançar sua música
Prometo que não terei objeção
Já que nesta noite querida
Seremos apenas nós neste salão

Quando chegar a hora da partida
Não teremos mais nada a perder
Então neste caminho não precisa me guiar
Já que nas vielas do teu corpo eu sei percorrer.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Fagulha letárgica

Eu já não estou mais
Presente nesse quarto
Já não calculo o tanto faz
Escorado em todos os erros

O sentido que existe
Por trás das fotos
Que recusei tirar
ainda aqui persiste

O rolo deste filme
mostrará que ele
Não é instantâneo como
O puro reflexo do olhar

Um SOS na areia da praia
Uma bandeira branca
Que a onda leva
Que o tiro dá

Somente em sala vermelha
O negativo vai se revelar
O que agora é apenas centelha
Ainda sem forças para incinerar.







sexta-feira, 29 de março de 2019

Gibi de 2 em 1

Te citei uma única vez
Mas eis que não perguntei
Se conseguia de fato ler,
Resposta que não mais terei

Chegou em raios de intensidade
E na mesma velocidade se foi
Deixando marcas nas paredes e
Na pele, camada de cima, a de verdade.

Larguei a poesia, tamanhos os rabiscos
Que habitam em meu corpo
Buscarei quem molha aos chuviscos
E pense incessantemente antes de ir
Com paciência para ler o que sobrou de mim, retalhos, de um inédito gibi.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Manhãs de quarta

Lá se vão nove anos
nove caminhos diferentes
escolhas convenientes.

Se os dedos estão calejados
de reviver histórias imortais
repletas de dias normais.

A alma abraça o recomeço
sem saber o que tem por atrás da porta
nem nas manhãs das quartas-feiras
se as terei por dias, horas ou semanas inteiras.

É o encontro do grito das palavras
com a suavidade da sua sonoridade,
do olhar linear e fixado sem acreditar
no destino que este quarto está a nos levar.

Até que o sol ilumina a cortina,
logo após um dilúvio de inundar
toda a vontade de rebobinar a hora
para que a chegada tome o lugar do 'ir embora'.




terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Empátheia

A diferença que nos separa
É o que chamam de imposição
Cada olhar torto adiciona
Uma nota em minha voz
Em todo o discurso a favor
Seja lá pelo o que ele for.

O incômodo se minha pele rabisca
De preto seus braços de pano
A cada toque, ainda desejando
Viver comigo um dia inteiro
Sob a espreita dos olhares
Tudo o que não viveu em um ano.

Reclama de quem seguro as mãos
Se questionando com quem
Quero ou não passar meus verões
Se presenteio com vestido ou terno
Mas não se importa do frio
Que faz quando se está sozinho no inverno.

O som que eu faço
A comida que eu como
Se rezo, oro ou se sou profano
Falo errado, não conjulgo verbo
Se acredito em um, dois
Nenhum ou em um milhão
Sou o Deus que eu quero.