segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

As vozes de um sussurro

Dois seres em um só lugar
Ora o sorriso a fazia imergir
Ora os punhos puxava a força
Antes que pudesse sufocar
Só para assisti-la quase afogar.

Em nova chance pra ti classificou
Tal ato como deslize
Algo tão pequeno
Que a alma sentia a dor
Revestida de perdões e cicatrizes
Mas mesmo assim não queria reencarnar.

As marcas começaram a desenhar
Uma história repetida e por muitas
Sussurrada aos pés dos ouvidos
Mas que precisava ter voz
Para aos quatro ventos gritar.

Em nova chance pra si classificou
Tal ato como o último
Algo tão grande
Que a mente pediu socorro
De tudo aquilo que o corpo
Não conseguia mais aguentar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Herói do sertão

São tempos difíceis
O solo não floreces como outrora
Todo esse tapete de escama
Nos faz andar sob as águas
E em sua ausência, por calefação
A seca na garganta te chama.

Riem do meu sotaque
Riem do meu gestual
Sou ignorante pelo tom
E pelo ruído do meu atabaque
Mas nessa inquisição
A minha fome é consensual.

Mas Maria, mal sabem eles
O quanto é bão'
Nadar contra maré nesse mar seco
E rasgar a terra com os dentes,
Se soubessem, Maria, eu não seria
O único herói desse sertão.


sábado, 20 de outubro de 2018

Réquiem

Alguns meses se passaram
E eu não consigo mais esperar
A ansiedade me consome tal qual
Um gavião em seu próprio ninho
Conto as horas para ver teu olhar.

Quero ensinar tudo o que sei
E aprender tudo que faltou
Mas por hora quero cantar
Uma antiga canção que cantava seu avô 
Sem importar se a letra vamos errar.

Coloco a moldura em volta desse espelho
A altura está boa? Consegue se ver?
Esta parte sua me pertence
Com o tempo você irá perceber 
E se lembrar de antigamente.

Quando invertemos os papéis
Era a sua voz a cantar
E eu, confesso, demorei a aprender 
A letra que repetida vezes
Ficava em minha cabeça.

Mas se juntos estamos novamente
Devemos aparar todos as farpas
Que nessa moldura se encontram
Quanto ao reflexo, eu sei, está diferente
Recomeçamos outra, de várias etapas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O ar rarefeito do sexto andar

Têm dias que nada da certo
Dias que é preciso bater o portão
Cada vez menos felino, um pouco mais de cão
Essa atração ainda nos mentem por perto

Mas lá vem você novamente
Dando teu nome a um furacão
Redefinindo os fenômenos naturais
Mas como? Com esses olhos sorridentes?

Decidi jogar esse teu jogo complicado
Os botões do controle enferrujados
Chegamos a níveis inimagináveis
Estes raramente desbloqueados

Te apresentei músicas em rodízios
Fiz poesia sobre o seu eterno amigo
Estendi minhas mãos sem intenção
Mas o corpo e a alma foram juntos
Assim como rima e toda a sua metrificação
Ah, e as noites, mais ainda as manhãs, me fazem esquecer do espaço entre os versos
Mesmo que dessa vez menos complexos
Enquanto espero teu bravo-doce olhar
Que tendem a vir em minha direção
Respiramos o ar do alto do nosso sexto andar.
E se nada somos, nada seremos em forma de poesia.

sábado, 30 de junho de 2018

Página 181

"... Passei minhas mãos pelos seus braços, e pude sentir por completo, para a minha tristeza, até demais. Barbantes amarravam meu objeto de desejo passional. De forma receosa evitei ao máximo olhar para cima, temia ver o que estava a controlar quem jurei de mãos juntas amar.

Decidi continuar a viver como se não houvessem amarras. Conheci um pouco mais dos seus maiores medos, em alguns até ajudei, mas confesso que em outros provavelmente parte desses medos me tornei. Porém um momento mudou tudo. Foi quando novamente tentei tocar suas mãos, mas elas se retraíram em forma de negação. Voltei a ver o barbante, mas dessa vez o vi esticado, forçando para o lado oposto ao meu. Um outro alguém tinha o controle.

Foi nesse exato momento que percebi que não poderia ser mais forte do que esse barbante, que agora se fortalecia feito um arame. Como em um ato de desafogo, peguei a tesoura, estiquei a corda e me pus a corta-la. Assim pude me distanciar, e enxergar melhor. De uma forma que antes, preso a este ser não pude avistar. O barbante que cortei estava preso a mim, e sei que eu mesmo coloquei. Mas abri mão, pois a força de quem controlava estava prestes a me levar.

Deixei ir, com pesar, mas não queria ser iludido em uma história que estivesse na eminência de a qualquer momento das minhas mãos escapar."

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Le héros du Finistère

As necessidades ainda são as mesmas, como a de sobreviver nessa guerra fria, gélida e invernal. Meu amor, não te preocupes prometo aumentar os envios de cartas como estas, para que saibas que não congelei em meio a esse mar que ora é calmo, ora turbulento. Saibas que os pensamentos me aquecem, são brasas que ressurgem de tempo em tempo, como quem tornou esta embarcação em seu templo. Queria que estivéssemos daqui 100 anos para que eu pudesse ler tuas cartas em um aparelho que ainda vão inventar, chegando de forma quase instantânea. Me surpreenderia se mesmo com todo aparato tecnológico demorasse tanto a me corresponder, duvidaria de teus sentimentos, mesmo que sejam idealizados mais por quem vos escreves do que por você. Talvez seja a maré que subitamente tenha diminuído, minguou tal qual a lua que ilumina este amarelado papel para que eu possa transcrever distúrbios de um jovem viajante. Vou precisar por aqui encerrar, os ventos fortes começaram, é hora de nos distanciar, mesmo acreditando que seria melhor esta tempestade enfrentar. Acredite. O sangue corre em ritmo diferente agora, talvez seja o efeito que você ainda me causa. Tudo bem, eu sei, eu sei que já escrevi muitas cartas endereçadas a diferentes destinos, mas quero que saiba que também foram enviadas de diferentes remetentes. Uns que viviam no espaço, outros que vivam em até outra dimensão, há quem tenha derrubado muro com o próprio punho que utilizava para poetizar, há quem tenha construído uma ponte para te trazer a este lado, e há quem apenas queira viver como um inspirado Visconde de um distante e ilusório povoado.

Avec amour,
Mer d'Iroise, 22 mars 1948.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Contorno da alma

Ahhh, se a perfeição
Não fosse objeto de desejo
A raça estaria salva
Toda a crucificação
Daria lugar ao cortejo
No contorno da nossa alma.

Pela frente apenas um degrau
Que chamaríamos de gente normal
Quanto mais alto chegarmos
Melhor seria a prova cabal
De que o erro em repetição
Nos torna menos seres de orgulho
E mais seres de imperfeição.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Instrumento de voo solo

Poderia ter sido uma despedida
Essas palavras poderiam nem serem ditas
Uma história há muito repetida
Demorei mas enfim consegui enxergar
Através desse sorriso, dessa alegria
Uma vontade no canto da boca
Parecia querer transbordar.

O peso desse mundo
Estava prestes a te dobrar
Escondi as lâminas
Isolei todas as músicas tristes
Não te deixei caneta e nem papel
Não houve despedida.

E ainda fui além...
Mostrei as cores mais vivas,
Os sons do bater das asas dos pássaros,
Assim como a dificuldade de se manter no ar
E que nem por um segundo
No alto, essas asas deixam de plainar.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Luz do farol

Decidi me eventurar
Teus expressivos olhos
Me propus a decodificar

E entre olhares
Faltava apoio aos pés
Me transportava a novos lugares.

Nas tuas telas brancas
Derramei toda minha tinta
Linear como palavras francas.

Uma obra de arte
Com molduras de preocupação
Cercavam também a terceira parte.

Em rápida aceleração
Antes de conhecer a parede
Tal quadro encontrou o chão.

A decisão mais irracional
Me faz querer deitar ao seu lado
E ver a vida de uma maneira horizontal.

Tal qual o por do sol
Que assiste na ida e na volta
Me propus a ser farol.





quarta-feira, 28 de março de 2018

Condizionale

Não é mais condicional
A certeza está cada vez mais presente
E enquanto a alma em meu corpo
Estiver por si só aderente,
Toda essa escolha será opcional
Os erros serão apenas limitações
De quem busca algo maior.
Justificar o amadurecimento
Da pele que ganha novos traços
Das marcas que já se apagaram
Mas insistimos em reacender
Tal qual outra chama no céu
Em um novo amanhecer
Até que a luz do dia
Em teimosia, se recuse a nós,
Se oferecer
Ou até que fechemos as persianas
Ainda a nos esconder.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

D. Juanismo

Disse palavras que você queria escutar
Desde aquela última nota musical
Não cantei mais nenhuma música
Que te fizesse no ritmo dançar.

Pesquisei sobre você em suas próprias frases
Provei todos os seus gostos
Até aqueles que você menos gosta
Fiz da minha espécie raridade

No momento em que encerramos essa nossa conversa
Seu olhar interpreta cada letra que eu escrevi
Um olhar fixo, sem nenhuma pressa.

De onde eu venho chamamos de dúvida
Um sentimento que pouco conhecemos
Mas que queremos abraçar
Para dar algum sentido a essa dúbia vida.

Agarre-se firme nessa interrogação
Quando menos esperar seus dedos
Não serão mais capazes de segurar

Enquanto eu estarei no pé do teu ouvido
Lendo tua biografia, relendo seus passos
Tirando o mais belo de um último sorriso.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Jogo pra dois

Sei o quanto é arriscado
Esse jogo de sedução 
Com um olhar velado
O corpo em erupção 
Essa é a melhor parte
Ser correspondido ou não
Ouvir todas as palavras que diz
Entender poucas verdades 
Ou viver de ilusão.

Como estamos dispostos a jogar de novo?

Reclamamos dos machucados
Causados por esses atos no passado
- Mas dessa vez será diferente!
Frase tão recorrente da minha mente
E mais uma vez o futuro se repaginou
E entre vindas, ficamos frente a frente
Mas se for com você eu vou, eu vou!

"É que eu sou fraco, frágil, estúpido para falar de amor..."


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Retratos de papelão

Foi observando a dor do outro
Que deixei a minha guardada na estante
Foi pensando em pendura-lo em um quadro
Que percebi o quanto somos errantes.

O peso de ambas as dores
Mal cabia comparação
Objetos cortantes sem pudores
Histórias de gibis feitas em papelão.

Pintor dessa curiosidade que me consome
Desafiei a lógica e todas as leis
Mal aprendi a grafia do teu nome
E eu achando que sabia demais aos vinte e seis.

E nessa composição de imperfeições
Seguimos mudando, e muito mudamos
É exatamente ai, dentre todas as combinações
Que nos tornamos mais ainda quem somos.