As necessidades ainda são as mesmas, como a de sobreviver nessa guerra fria, gélida e invernal. Meu amor, não te preocupes prometo aumentar os envios de cartas como estas, para que saibas que não congelei em meio a esse mar que ora é calmo, ora turbulento. Saibas que os pensamentos me aquecem, são brasas que ressurgem de tempo em tempo, como quem tornou esta embarcação em seu templo. Queria que estivéssemos daqui 100 anos para que eu pudesse ler tuas cartas em um aparelho que ainda vão inventar, chegando de forma quase instantânea. Me surpreenderia se mesmo com todo aparato tecnológico demorasse tanto a me corresponder, duvidaria de teus sentimentos, mesmo que sejam idealizados mais por quem vos escreves do que por você. Talvez seja a maré que subitamente tenha diminuído, minguou tal qual a lua que ilumina este amarelado papel para que eu possa transcrever distúrbios de um jovem viajante. Vou precisar por aqui encerrar, os ventos fortes começaram, é hora de nos distanciar, mesmo acreditando que seria melhor esta tempestade enfrentar. Acredite. O sangue corre em ritmo diferente agora, talvez seja o efeito que você ainda me causa. Tudo bem, eu sei, eu sei que já escrevi muitas cartas endereçadas a diferentes destinos, mas quero que saiba que também foram enviadas de diferentes remetentes. Uns que viviam no espaço, outros que vivam em até outra dimensão, há quem tenha derrubado muro com o próprio punho que utilizava para poetizar, há quem tenha construído uma ponte para te trazer a este lado, e há quem apenas queira viver como um inspirado Visconde de um distante e ilusório povoado.
Avec amour,
Mer d'Iroise, 22 mars 1948.
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