"... Passei minhas mãos pelos seus braços, e pude sentir por completo, para a minha tristeza, até demais. Barbantes amarravam meu objeto de desejo passional. De forma receosa evitei ao máximo olhar para cima, temia ver o que estava a controlar quem jurei de mãos juntas amar.
Decidi continuar a viver como se não houvessem amarras. Conheci um pouco mais dos seus maiores medos, em alguns até ajudei, mas confesso que em outros provavelmente parte desses medos me tornei. Porém um momento mudou tudo. Foi quando novamente tentei tocar suas mãos, mas elas se retraíram em forma de negação. Voltei a ver o barbante, mas dessa vez o vi esticado, forçando para o lado oposto ao meu. Um outro alguém tinha o controle.
Foi nesse exato momento que percebi que não poderia ser mais forte do que esse barbante, que agora se fortalecia feito um arame. Como em um ato de desafogo, peguei a tesoura, estiquei a corda e me pus a corta-la. Assim pude me distanciar, e enxergar melhor. De uma forma que antes, preso a este ser não pude avistar. O barbante que cortei estava preso a mim, e sei que eu mesmo coloquei. Mas abri mão, pois a força de quem controlava estava prestes a me levar.
Deixei ir, com pesar, mas não queria ser iludido em uma história que estivesse na eminência de a qualquer momento das minhas mãos escapar."
... enquanto és caçador, aprende a controlar, a mente finge dor, sem fazer os olhos marejar.
sábado, 30 de junho de 2018
sexta-feira, 15 de junho de 2018
Le héros du Finistère
As necessidades ainda são as mesmas, como a de sobreviver nessa guerra fria, gélida e invernal. Meu amor, não te preocupes prometo aumentar os envios de cartas como estas, para que saibas que não congelei em meio a esse mar que ora é calmo, ora turbulento. Saibas que os pensamentos me aquecem, são brasas que ressurgem de tempo em tempo, como quem tornou esta embarcação em seu templo. Queria que estivéssemos daqui 100 anos para que eu pudesse ler tuas cartas em um aparelho que ainda vão inventar, chegando de forma quase instantânea. Me surpreenderia se mesmo com todo aparato tecnológico demorasse tanto a me corresponder, duvidaria de teus sentimentos, mesmo que sejam idealizados mais por quem vos escreves do que por você. Talvez seja a maré que subitamente tenha diminuído, minguou tal qual a lua que ilumina este amarelado papel para que eu possa transcrever distúrbios de um jovem viajante. Vou precisar por aqui encerrar, os ventos fortes começaram, é hora de nos distanciar, mesmo acreditando que seria melhor esta tempestade enfrentar. Acredite. O sangue corre em ritmo diferente agora, talvez seja o efeito que você ainda me causa. Tudo bem, eu sei, eu sei que já escrevi muitas cartas endereçadas a diferentes destinos, mas quero que saiba que também foram enviadas de diferentes remetentes. Uns que viviam no espaço, outros que vivam em até outra dimensão, há quem tenha derrubado muro com o próprio punho que utilizava para poetizar, há quem tenha construído uma ponte para te trazer a este lado, e há quem apenas queira viver como um inspirado Visconde de um distante e ilusório povoado.
Avec amour,
Mer d'Iroise, 22 mars 1948.
Avec amour,
Mer d'Iroise, 22 mars 1948.
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