quinta-feira, 11 de junho de 2020

Regressão progressiva

É o começo do fim dos tempos
Eis uma história versada
Dos dias que até são atuais
Contada por uma vida passada.

As ruas estão cheias de ideias
Palanques em peças de teatro
Braços para trás, mãos para o alto
Um retrato vivo de 64.

A pele se distância cada vez mais
Punho erguido com o fechar da mão
A voz abafada aumenta o volume
Lave-se com lágrimas e sabão.

E nessa fenda espaço-tempo seguimos
Contaremos a nós mesmo no final
Que fomos caçados e quase extintos
Segurando placa numerada de marginal.


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Dualismo laico

Quando fui o bem
Conquistei mais do que eu pedi
Mas morri
Tão rapidamente que nem senti.

Quando fui o mal
Assoprei meu próprio pavio
Mas morri
Para alguns já era hora, para outros, tardio.

Quando fui Deus
Me questionavam porque de todas essas idas,
Mas também morri,
Com a ausência de fé em tantas vidas.

Neste mundo maniqueísta,
Descobri que sou humano,
Com mistura difundida no sangue,
Mas sei que morri,
Não ficaria de fora desse ato profano.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Em bordas emoldurar

O reflexo da tela não mentia
A paz que pouco inalava
Não era causa de empatia
Pedidos de ajuda por telepatia
De presente se embalava
Queriam sempre outra fatia.

Os dedos insistiam arrastar
Para o lado ininterruptamente
A parte perfeita que quis mostrar
Buscando atingir mais gente
Copos suados em mesa de bar
Mãos cansadas de mais pra clicar.

Mais que podia, se entregava
Agora pouco importa
Quase mais não estava
Onde queria estar,
Alimentava sua rede
Sem conseguir se alimentar
Sem pregos na parede
Para se prender
E apenas admirar.

A tela trinca
A alma esvaece
A mente esquece
As fotos de quinta
Felicidade extinta
O céu escurece
Bom senso prevalece
Transborda tinta
Autorretrato não se pinta
De quem se desconhece.








quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Relações liquidas

Ilhado nessa multidão
Pessoas que não acabam mais
Eu me sinto neutralizado
Sem saber do que eu sou capaz.

Nessa desordem marítima
Pessoas não se escutam mais
Eu me despeço apressado
Ainda remo ao sólido cais.

...

Relações liquidas em vão
Escorrem pelos dedos
E evaporam, antes de atingir o chão.

Relações cíclicas vem e vão
- Como você está?
Perguntam apenas por educação.

E nas nuances da sensatez
Barcos firmes se constroem
Para flutuar em toda essa liquidez.